Um estudo realizado pelo Ministério da Saúde e pela Universidade de Brasília (UnB) mostra que em cada 10 suicídios entre adolescentes e jovens brasileiros, seis ocorrem entre a população negra. O estudo que foi divulgado no início de 2019 mostra, ainda, que enquanto a taxa de suicídios entre adolescentes e jovens brancos não teve variação significativa entre os anos de 2012 e 2016, a taxa referente aos negros aumentou em 12% nesse mesmo período – indo de 4,88 a cada cem mil habitantes em 2012 para 5,88 em 2016.

A pesquisa retoma uma questão que é cada vez mais tratada por psicólogos e psicanalistas ao redor do mundo: a relação entre racismo e saúde mental. Em artigo de 2011, os psicólogos André Faro e Marcos Emanoel Pereira chamaram esse impacto de “a desigualdade social da distribuição do estresse”. Segundo eles, “(...) a discriminação racial implica limitações fundamentais na vida dos indivíduos, o que impacta incisivamente na quantidade de estresse experienciada”.

Em entrevista ao Nexo, o psicólogo Valter da Mata afirmou que a principal esfera psicológica atingida pelo racismo é a autoestima. Práticas de racismo explícitas ou veladas, exercidas em ambientes de estudo, trabalho e sociabilização, costumam minimizar, ignorar ou inviabilizar a presença e o valor da pessoa negra. De forma consciente ou não, prossegue da Mata, o indivíduo atingido pelo preconceito passa a interiorizar aquelas concepções deturpadas quanto a si mesmo, aumentando suas chances de desenvolver doenças psíquicas como depressão, ansiedade e baixa autoestima.

A relação danosa entre racismo e saúde mental atinge, segundo da Mata, aqueles elementos psíquicos que aparecem também no estudo do Ministério da Saúde e da UnB anteriormente citado. O estudo destaca a depressão como uma das principais causas para a tentativa de suicídio entre jovens e adolescentes, acompanhada de fatores como violência física, sentimento de não pertencimento, exclusão e não aceitação, seja por parte de um grupo ou por si mesmo. Daí derivaria o fato de as taxas de suicídio serem maiores entre os negros.

A psicóloga Maria Lúcia da Silva levantou, em entrevista à Cult , outro ponto imprescindível à discussão sobre racismo e saúde mental, o mito da democracia racial. Segundo ela, "as humilhações cotidianas vão produzindo marcas no negro. E, com a negação sistemática do Brasil e do brasileiro em relação ao racismo, esse sujeito também sofre algumas distorções na forma como ele mesmo vê a realidade, questionando se aquilo que vive [o preconceito] é real ou imaginário."

Reverter o quadro social de preconceito é o que pode evitar que esse cenário de desigualdade no direito à saúde psíquica da população negra se perpetue. Mas psicólogos, pesquisadores e o próprio Ministério da Saúde entendem que é também responsabilidade dos profissionais dessas áreas se prepararem para atender aqueles que estão sendo vitimados agora.

O Instituto AMMA – Psique e Negritude oferece oficinas e cursos de formação para profissionais da área. E na página do Facebook, divulga rodas de conversa, debates, lançamentos de livros e oficinas relacionados ao tema que acontecem ao redor do país.

Vale destacar, ainda, que no Brasil o racismo é crime inafiançável previsto por lei, e deve ser denunciado – a denúncia pode ser feita em qualquer delegacia.

Além da denúncia, procurar apoio psicológico é importante para minimizar os impactos psicológicos dessa violência. Existem grupos e profissionais preparados para atender quem precisa.

Profissionais e Grupos de Apoio Terapêutico

Instituto AMMA – Psique e Negritude
O instituto possui um corpo de psicólogos e psicanalistas com formação adequada para compreender as especificidades sociais e psicológicas da população negra no Brasil e a relação entre racismo e saúde mental.

CAPS – Centros de Atenção Psicossocial
Os CAPS oferecem atendimento gratuito relacionado à saúde mental, consumo de drogas e álcool e estão distribuídos em várias cidades brasileiras.

Centro de Valorização da Vida – CVV
Apoio emocional gratuito via telefone pelo número 188 (ligação gratuita) ou chat, Skype e e-mail.

Roda Terapêutica das Pretas
Oficinas terapêuticas periódicas para mulheres negras organizadas por psicólogas.