O Manifesto Ágil é a declaração criada a partir da Metodologia Ágil, que nasceu na indústria de desenvolvimento de software como uma nova forma de gestão de projetos. Existem vários métodos ou frameworks de trabalho vinculados à metodologia e, independente de qual deles você utiliza ou utilizará, todos têm em comum um mindset que deve refletir como pensamos e nos comportamos no presente. Para declará-lo é que foi criado o Manifesto Ágil, comunicando a sua essência.

O Manifesto Ágil diz que:


"Estamos descobrindo maneiras melhores de desenvolver software, fazendo-o nós mesmos e ajudando outros a fazerem o mesmo. Por meio deste trabalho, passa-se a valorizar:

  • Indivíduos e interações mais que processos e ferramentas;
  • Software em funcionamento mais que documentação abrangente;
  • Colaboração com o cliente mais que negociação de contratos;
  • Responder às mudanças mais que seguir um plano."

Para partirmos do mesmo ponto, vale explicar alguns termos ainda pouco conhecidos de maneira geral, como mindset. Essa palavra é utilizada para designar um modelo mental de como tudo funciona: se o seu modelo mental não se encaixa em seu dia a dia, há dor e frustração. Se, ao contrário, se encaixa, gera-se mais energia e motivação.

Por isso, desenvolver o mindset ágil é tão importante quanto aprender novas práticas e ferramentas: tem a ver com fazer as perguntas certas, resolver problemas certos e agir para gerar essa energia e motivação. Compreender o manifesto e tudo que ele representa é um grande passo para essa mudança.

Para não refletir o manifesto a cada linha usando como base a comparação, proponho uma análise vertical. Vamos olhar pelos tópicos do lado direito e esquerdo.

O lado direito do manifesto

Antes de começarmos, é importante repararmos na escolha do "mais que" e não de "ao invés de" na escrita do Manifesto. Isso significa que o ágil entende que o lado direito do manifesto pode - e deve - existir de forma complementar. A ideia é apenas que ele não prevaleça, e por isso os itens da esquerda são mais valorizados.

Documentação abrangente e negociação de contratos

Já que falamos que o ágil é um mindset e, portanto, não vale só para gestão de projetos, cabe fazer uma analogia de uma situação do dia a dia com a documentação abrangente e com a negociação de contratos: é comum no mundo corporativo, depois de uma reunião, ouvirmos: **você poderia documentar a solicitação por e-mail, por favor? **

Sim, a motivação dessa frase pode ser não esquecer de algum detalhe conversado, mas e se algo do combinado sair errado? O e-mail será o primeiro a aparecer como justificativa. O mesmo vale para atas que quase descrevem as falas dos participantes. Ou seja, cria-se uma ilusão de garantia, quando o melhor é criar uma relação de parceria, já que o foco é resolver o problema e encontrar juntos uma solução ou, em uma situação positiva, compartilhar o sucesso favorecendo o coletivo.

Veja que negociar contratos é importante, assim como documentar projetos ou reuniões, mas antes disso se pergunte o por quê a situação exige que isso seja feito e se o custo ou energia consumidos equivalem ao benefício da entrega.

Processos e ferramentas

Todo esse raciocínio anterior também vale para processos e ferramentas que devem ajudar a equipe, adaptando-se a ela sem burocratizar. Processos pedem que regras sejam estabelecidas e uma postura não-ágil seria, diante de um caso urgente ou de extrema necessidade, que esses processos e ferramentas tenham tanta importância que não possam ser deixados de lado ou revistos. Novamente, regras e restrições são valiosas se bem empregadas e ajudam a organizar ambientes complexos.

Seguir um plano

É importante e necessário traçar uma rota para onde se quer chegar. O que não é recomendado é que esse plano seja visto como algo que, uma vez escrito, deva ser seguido independente das circunstâncias. Muitas vezes quando pensamos no planejamento trazemos respostas para problemas que são apenas hipóteses de problemas – ou seja, provavelmente descobriremos novos problemas e novas respostas se farão necessárias. Com isso, em algum momento pode não fazer sentido continuar seguindo um plano simplesmente porque ele foi escrito. Depois de percorrer uma etapa do caminho, temos muito aprendizado e sabemos mais sobre como atingir o resultado que queremos.

O lado esquerdo do manifesto


Indivíduos e interações

Não por acaso indivíduos e interações estão no primeiro item do manifesto. Já é indiscutível a importância da valorização das pessoas, afinal as habilidades e capacidades individuais é que, somadas às do grupo, são responsáveis pelo sucesso do projeto.

Mas por que o ágil inclui as interações junto dos indivíduos? É simples. A colaboração é essencial no processo, mas a comunicação é normalmente muito negligenciada. É comum assuntos serem deixados para resolução tardia, apesar de terem óbvia importância. Fato é que a qualidade das interações é determinante para o sucesso e eficácia do projeto.

Os canais de interação também impactam a comunicação. O ágil incentiva os indivíduos a conversarem pessoalmente ou por telefone sempre que possível, buscando justamente a eficácia. É claro que há dificuldade para manter a disciplina com frequência: é comum as reuniões diárias virarem reuniões semanais se o time não enxergar o valor que elas possuem.

Software em funcionamento

O segundo ponto, software em funcionamento, pode ser facilmente substituído por outro produto ou serviço, caso você não trabalhe diretamente com softwares. Aqui o que é valorizado é o resultado do trabalho e o quanto ele entrega de valor para o negócio. O cliente sabe muito sobre a sua necessidade e pode não conseguir tangibilizar ou compreender na linguagem sistêmica qual resultado será atingido com a sua solicitação. É assim quando compramos qualquer produto ou serviço novo – precisamos aprender até como solicitá-lo.

Além disso, muitas vezes dedicamos mais tempo documentando e pedindo aprovações no que não é claro para o cliente. Por isso a relevância da entrega interativa de versões do produto, para que essa expectativa e amadurecimento de entendimento da necessidade seja aperfeiçoado, valorizando novamente o feedback, o que com apenas a documentação não seria possível de ser feito.

Colaboração com o cliente

Aqui o que se espera – na prática – é que não existam lados diferentes, mas um time único em busca de um objetivo comum: o valor para o negócio. Nesse processo, todos são importantes porque cada um tem contribuições essenciais nas tomadas de decisão conjuntas e para que o resultado seja de qualidade.

Nesse ponto, comunicação é essencial para se construir uma relação de parceria e colaboração. Dessa forma fica muito mais fácil fazer com que o time compreenda e aceite as mudanças e, a partir dos feedbacks recebidos pelo que já foi entregue, contribua com o produto e potencialize suas entregas. Na colaboração com o cliente tudo está bem interligado, já que o cliente e o seu produto são o centro do processo.

Responder às mudanças

Por último e tão importante quanto todos os outros pontos: responder às mudanças. Esse ponto tem mais a ver com entender como lidar com cada mudança, e menos com como evitá-las. A mudança de contexto é algo visto como natural dentro do método ágil e, dependendo do nível de incerteza do produto, aceito em maior ou menor volume.

O ágil entende que a visão do produto é a essência e não muda. Já todo o restante – escopo, funcionalidade, arquitetura e tecnologia – é passível de mudança. Aqui sempre cabe a reflexão: o que estou desenvolvendo está gerando o valor necessário para o negócio? Sempre reflita e, se necessário, questione.

Os princípios por trás do manifesto ágil que reforçam esse mindset são:

  • Nossa maior prioridade é satisfazer o cliente, por meio da entrega adiantada e contínua de software de valor.
  • Aceitar mudanças de requisitos, mesmo no fim do desenvolvimento. Processos ágeis se adequam às mudanças para que o cliente possa tirar vantagens competitivas.
  • Entregar software funcionando com freqüencia, na escala de semanas até meses, com preferência aos períodos mais curtos.
  • Pessoas relacionadas aos negócios e desenvolvedores devem trabalhar em conjunto e diariamente, durante todo o curso do projeto.
  • Construir projetos ao redor de indivíduos motivados. Dando a eles o ambiente e suporte necessário, e confiar que farão seu trabalho.
  • O Método mais eficiente e eficaz de transmitir informações para, e por dentro de um time de desenvolvimento, é através de uma conversa cara a cara.
  • Software funcional é a medida primária de progresso.
  • Processos ágeis promovem um ambiente sustentável. Os patrocinadores, desenvolvedores e usuários, devem ser capazes de manter indefinidamente, passos constantes.
  • Contínua atenção à excelência técnica e bom design aumenta a agilidade.
  • Simplicidade: a arte de maximizar a quantidade de trabalho que não precisou ser feito.
  • As melhores arquiteturas, requisitos e designs emergem de times auto-organizáveis.
  • Em intervalos regulares, o time reflete em como ficar mais efetivo, então, se ajustam e otimizam seu comportamento.
  • O Manifesto Ágil não muda apenas a cultura de desenvolvimento de software – ele pode ser aplicado em qualquer atividade profissional. Estimular a troca de feedbacks é muito importante, assim como aprender sempre e não ter medo de mudar.

O que você achou de mais interessante no Manifesto Ágil? Conte pra gente!